O Que Aconteceu com a SEGA?
Era uma vez uma empresa que fazia videogames. Ela tinha alguns dos profissionais mais talentosos que essa indústria já viu e lançava alguns dos melhores e mais criativos games da época. Seu marketing agressivo aparecia desde corridas de Fórmula 1 até programas de televisão ou grandes shows de astros da cena pop. Era uma concorrente de peso, uma das poucas capazes de fazer frente a sempre poderosa Nintendo. Mas essa empresa que lucrava milhões e era sinônimo de qualidade, pouco a pouco, foi enfraquecendo, enfraquecendo, até jogar a toalha e abandonar o setor de hardware (o videogame propriamente dito), voltando-se apenas para o setor de softwares, ou seja, os jogos. Estamos falando da Sega, e quem viveu os anos 90, muito provavelmente já deve ter se perguntado por que não se vê mais videogames dessa empresa, e por que diabos os seus jogos agora aparecem em tudo quanto é videogame diferente.
E é isso que nós vamos tentar entender agora, nessa postagem retrospectiva que serviria muito bem como um manual do tipo “Como perder a confiança do público”.
O videogame aos pedaços
Depois do Master System, que não pode ser considerado um fracasso, tampouco um sucesso absoluto (e não foi o primeiro videogame da empresa, mas não vale a pena escavar tanto se vamos falar apenas de sua queda nessa postagem), a Sega vinha bem com o seu Mega Drive (Genesis, dependendo de onde você esteja), rivalizando em pé de igualdade com o SNES na maior parte do mundo (menos no Japão, onde até o PC Engine / TurboGrafix-16, quase anônimo por aqui, vendia mais que o videogame da Sega). A única pedra no sapato da Sega era o fato de que os concorrentes traziam recursos que o Mega Drive, lançado ainda no final da década de 80, não tinha, o que brecava significativamente as vendas, embora elas ainda fossem muito boas... E conforme o tempo foi passando, a Sega resolveu dar um jeitinho nisso. Quase que um jeitinho brasileiro, diga-se de passagem. Aliás, eu disse um jeitinho? Esquece, foram vários...
| Primeiro modelo do Mega com o Sega CD e o 32X |
O Mega Drive tinha uma porta de expansão. E a Sega levou ao pé da letra esse negócio de expandir. A primeira “grande idéia” da empresa foi que o seu Mega Drive precisava de uma mídia nova, por assim dizer, até porque, o Pc Engine, forte concorrente japonês, tinha como uma de suas grandes armas as maravilhas permitidas pela novidade do CD-Rom. Não demorou tanto para que o mundo visse o Sega CD, um acessório que servia como um leitor de CD-Rom para o console, uma novidade que abria dezenas de possibilidades, especialmente considerando que não apenas a mídia era diferente, sendo o Sega CD por si só mais potente que um Mega Drive comum. A bem da verdade, o Sega CD era uma idéia que para você, jovem gafanhoto que pegou da geração PS2 em diante, pode parecer bem bizarra, mas que para a Sega, na época, devia parecer ótima: Praticamente um console independente (com vários jogos exclusivos, diga-se de passagem) que só funcionava se estivesse acoplado a um outro videogame mais antigo.
Se isso tudo já te parece bastante estranho, sente-se para não cair: O Sega CD chegou aos EUA custando US$ 299,00. Para efeitos de comparação, o Mega Drive em si custava US$ 199,00! Ou seja, a “expansão” era mais cara que o aparelho, e juntos, custavam praticamente US$ 500,00!
“Devia ser muito louco!”, você pode pensar, mas não era bem assim. Primeiro que a diferença técnica se baseava mais na capacidade de rodar vídeos (Night Trap, um famoso jogo que era chatinho, mas ganhou fama por isso, que o diga) e músicas com qualidade de CD (as marcantes músicas de Sonic CD, são prova disso). No demais, pouca coisa se viu. Final Fight, por exemplo, não era melhor que a versão SNES. Aliás, o SNES, sem a necessidade de nada disso, lançaria alguns jogos tecnicamente fantásticos mesmo em comparação com o Sega CD, como a série Donkey Kong Country. Mesmo assim o Sega CD vendeu relativamente bem e teve muitos jogos. Mas não foi o bastante para a Sega se acalmar. Qual o plano agora?
| Mega Drive com um 32X acoplado |
A empresa já se preparava para lançar o sucessor do Mega Drive. Se preparava até demais: Diz a lenda que a divisão norte americana da empresa trabalhava num console, e a divisão japonesa, em outro, ao mesmo tempo, sem que uma tivesse conhecimento do projeto da outra e até com um clima de rivalidade pairando no ar entre as duas divisões da mesma empresa!
Um desses projetos realmente se tornaria o sucessor do console, e disso já trataremos. Agora a bola da vez é o outro, que não deu tão certo assim. O 32X foi lançado com a idéia de transformar o Mega Drive num autêntico videogame de 32 bits, capaz de rodar games em 3D (a grande novidade da época) e teoricamente muito mais potente que o SNES. Diferente do Sega CD, no entanto, o 32X tinha pouquíssimos jogos realmente bons (Virtua Racing Deluxe, é realmente incrível), foi lançado a US$ 159,00 (ou seja, quem foi na onda da Sega e foi comprando tudo isso, gastou perto de US$ 660,00!) e não só chegou tarde o bastante para ter que enfrentar a concorrência implacável do Playstation da novata Sony, como tarde o bastante para pegar os últimos dias do sempre forte SNES, e de quebra disputar mercado de forma bisonha com o Saturn, da própria Sega!
Ah, e isso sem citar que alguns dos jogos que faziam sucesso nesses videogames acabavam ganhando versão para computador também, ou seja, a Sega sequer mantinha exclusividade de seus próprios jogos...
| Sega CDX |
Outro detalhe que não pode passar em branco é a questão prática da coisa. Um Mega Drive com o Sega CD e o 32X acoplados era um verdadeiro Megazord, simplesmente gigantesco e todo desmontável. De brinde, ainda o fato de que cada um desses videogames tinha sua própria fonte! Mais tarde, para tentar dimiunir esse problema, a Sega foi lançando videogames mais enxutos, como o Sega CDX, um híbrido de Mega Drive e Sega CD. Pena que isso foi lançado tarde demais, quando todo mundo já tinha gasto fortunas para montar o videogame aos poucos. E tem mais: Embora os manuais deixassem claro que os dois consoles "adicionais" não eram compatíveis entre si, foram lançados alguns (poucos, é verdade) jogos que só funcionavam se você tivesse o Sega CD e o 32X. Isso sem contar o fato de que havia mais de um modelo de Mega Drive no mercado, o que resultou em diferentes modelos de Sega CD e 32X, cada um para um tipo de Mega... Tenho que deixar ainda uma menção honrosa para o Sega Neptune, um híbrido de Mega Drive e 32X (sem o Sega CD), que jamais viu a luz do dia, sendo cancelado sem maiores explicações muito próximo da sua data de lançamento.
Uma confusão de outro mundo
E no meio disso tudo, o público, completamente perdido, sem saber o que fazer ou em quem acreditar. Não que a Sega soubesse. O Saturn, por exemplo, originalmente, deveria ser a máquina para games em 2D definitiva. O problema é que muita coisa mudou no meio tempo entre o início da produção dele e o final. Além da Sony ter anunciado o seu videogame voltado para o 3D, a própria Sega havia ajudado a transformar isso numa tendência, com seus Arcades de grande sucesso como Virtua Fighter, por exemplo, ou até mesmo o marketing que usara para promover o 32X. No final, a Sega teve que, já as vésperas do lançamento do console, jogar tudo pro ar e dar um jeito da máquina ter capacidade de rodar esse tipo de jogo de forma comparável ou melhor que seus concorrentes. Na prática, o que ela fez foi “remendar” o console, dessa vez antes do lançamento (pelo menos isso) adicionando um novo processador voltado para esse tipo de gráficos e mudando as especificações técnicas do dia pra noite, com componentes que nem sequer haviam sido projetados para trabalharem juntos. O resultado foi um console super potente, e super complicado, com direito a duas CPU's(numa época onde Dual Core's e Quad Core's da vida não passavam de ficção científica), incríveis 6 processadores e uma das linguagens de programação mais complexas de todos os tempos em se tratando de videogames.
Um videogame para o qual produzir jogos era muito caro, demorado e trabalhoso, o que afastava as produtoras, a despeito de seu enorme potencial técnico. E um videogame caro, lançado a US$ 400,00, o que afastava os consumidores (para se ter uma idéia mais clara, o console chegou ao Brasil custando R$ 800,00. Isso pode até parecer o preço normal de um videogame hoje em dia, mas devo te lembrar que na época, o salário mínimo estava na casa dos R$ 75,00... ).
Os anos foram se passando e o Saturn, de fato, não emplacou, como era de se esperar. Uma vez destruída a confiança do público em seus produtos, a não satisfeita Sega agora queria irritar também as parceiras. E conseguiu isso muito bem, com atitudes como descontinuar o Saturn um ano antes do lançamento do próximo console, sem prévio aviso, ou ainda assinar contrato para que uma empresa fornecesse os processadores desse novo console, só para desonrar o compromisso e assinar com outra tempos depois (o que lhe rendeu um processo). O fato é que a Sega estava desesperada para lançar o sucessor do Saturn e chutou tudo, desde o planejamento até parcerias bem firmadas, para fazer desse “sonho” realidade o mais rápido possível.
Sonhar não custa nada. Ou custa...
Esse novo console era o Dreamcast. Novamente, as divisões americana e japonesa trabalharam separadamente, mas dessa vez, já sabendo que apenas um dos projetos seria escolhido. O Dreamcast veio ao mundo no final de 1998, muito antes dos seus concorrentes da sexta geração, mas, pela primeira vez em muito tempo, lotado de acertos por parte da Sega, partindo de uma campanha de marketing muito boa, principalmente nos EUA (que fez do console recordista de vendas no lançamento, posto que mantém até hoje). O Dreamcast era um console muito poderoso para seu tempo, com ótimos jogos, algumas novidades bacanas, como o VMU (uma espécie de memory card misturado com videogame portátil, que ainda servia de tela auxiliar para os jogos) e funcionalidades online que de certa forma ajudaram a definir o futuro da indústria. E vendia bem. Tudo parecia maravilhoso até que a Sony anunciou o Playstation 2, que além de mais potente, usaria DVD's como mídia e ainda serviria para reproduzir filmes no novo formato.
De repente, a Sega e seu Dreamcast ficaram obsoletos, uma vez que a Sony também prometia internet para seu novo videogame (embora tenha demorado para cumprir a promessa, mas isso o público não tinha como saber) e, devido aos erros recentes, o nome Playstation causava maior simpatia no público que a marca Sega, que bem que tentou, mas não conseguiu segurar o Dreamcast por muito tempo. Para piorar, outros concorrentes, como o Gamecube e o Xbox (que por sinal, foi obra de uma Microsoft muy amiga, que ajudou a Sega no desenvolvimento do Dreamcast e depois lançou seu console, abusando dos acertos do console da Sega e fugindo dos erros), chegaram para acabar de vez com a brincadeira. A Sega não tinha mais para onde correr, e anunciou, ainda em 2001, que o Dreamcast seria descontinuado, também. Era o fim da empresa no ramo de hardware, e agora ela trabalharia apenas no mercado de jogos.
Depois disso a Sega, financeiramente, se recuperou e hoje em dia vai bem, obrigado. Entre jogos bons e ruins, em geral, os gamers saudosistas não conseguem fugir de compará-la com aquela dos bons tempos. Tempos de uma empresa que apesar dos seguidos erros, criou jogos e personagens que marcaram toda uma geração. Não foram apenas esses os erros que causaram a queda da divisão de consoles da Sega, houveram muitos outros (não falamos por exemplo dos videogames portáteis da Sega ou de suas campanhas de marketing de gosto e efetividade duvidosos), mas no final das contas, é uma pena que tenha se desenrolado assim. Por que em meio a esses erros, houveram acertos, e quem viveu essa época, certamente se lembra com muita saudade desses acertos...



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